quarta-feira, 13 de junho de 2012


obscenidade insana


Quando chegou em casa
sentiu o coração dormir
como um cão manso
apenas dormindo
sem nada pra fazer

Quando chegou em casa
porque tinha a solidão
vinda de algum lugar no passado
dias e noites dormindo qual menino
sentiu seu peso
e tudo bem

suíte inócua nº 1

O que foi feito então com minha face?
Apenas ficou a perdida tristeza...
E a menina linda por onde se foi?

Trago livros e dicionários, senhores

livros e contos e versos
reversos da existência
murcha a rosa está.

O quarto cubista em meu peito
guarda versos que deitei fora
instante dor dos livros e versos
mimeses de vidas e dores
amores em vão
e fim.


26/06/2003

Não deitei o lixo fora
mas o caminhão passou...
apenas o ruído chato
e eu não havia deitado o lixo fora
mesmo assim ele veio e levou consigo
a fedentina e o avesso das senhoras
das moças
dos moços
das crianças
dos homens...
apenas os velhos, como eu,
não puderam deitar o lixo fora

O caminhão parado espera o último
pacote da podrura humana
e se foi

11/03/2003

Ode à memória

para Conceição Lopes Pereira

Minha memória está viva. Viva!
Viva à memória deste potiguar maluco, louco, não apagou


Encontrei minha amiga louca – Alberto Caeiro –
Desmaio entre músculos supostos –
Das noites de anjo barroco em neópolis
Ao som do olhar 43 e vinho
E comida de apartamento.


Viva a Ceiça, Conceição, que acendeu minha memória e Rosa e Sírame
O poeta Da Rua onde está?
O poeta dos Brotos onde está?
E Afonso e Mazinho e todos os ébrios das noites quentes e cachaça com tripa de porco no bar do coelho?


Viva a memória que trouxe de volta Pessoa, Bandeira,
Ana C. e todos os poetas malditos!
Estou vivo!
Finalmente me liberto do taliban!
Estou vivo!
E ouço o batuque não dos maracatus, mas do Balanço do Morro na ânsia do menino que esperava ver o samba na calçada...


Ó calçada de minha infância!
Tão odiada e amada
Prisão e portal para a liberdade
Ah calçada! Onde o poeta Da Rua conversava e me trazia as novidades dos marginais.
Passado ancestral mas não mudo,
Passado que carrego em meus dias,
Ó dias que carrego pesado em silêncios e solidão constantes
Dor de dente que perpassa todo meu ser.


Hoje, dessa varanda gradeada, ouço o ronco dos motores da Caxangá
Não a Caxangá do poeta das pedras
Mas a Caxangá líder em atropelamentos
E contemplo o Cordeiro que deixarei para trás
Junto com sua poeira interminável de sábados sem fim...
Vejo o tédio dos meus dias indo em boa hora...


Ainda bem que existe o adeus!
Adeus, Veneza Brasileira!
Adeus, Recife dos mascates!
Adeus, Jaboatão dos Guararapes!
Adeus, Olinda que não achei tão linda mais!
Adeus, bigodes hipócritas!
Adeus, negros disfarçados de brancos!
Adeus, mulheres com a moda do novo século mas com a mente no XIX!


(mas não revolucionárias republicanas)


Graças a Deus que existe Meia-Noite e sua gente,
Selma do Coco, Mestre Ambrósio,
O saudoso Chico Science e Gonzagão,
O Daruê Malungo e seus negros negros
E aquele branco negro que me encantou
E todas as cores das chitas
E atabaques e tambores
E as crianças disciplina de África
E aquela tatuagem em braço de branco batucando afoxé
Adeus, senhora quatrocentona barroca!
Gorda e cansada, a reprovar a tudo e a todos
Velha e feia.
Adeus, hipócritas de terno e vestidos longos a encobrirem suas ardências lenitas!
Adeus, falsidades ideológicas!
Adeus, conventos abrigos de homens.


(eu vi teus bastidores e não gostei)


Ainda bem que tem Bandeira
Ainda bem que tem os neomarginais de Abreu e Lima,
Ainda bem que tem Devotos, Mundo Livre e o Nação Pernambuco,
O homem da Meia-Noite, o Bacalhau com Batata,
E o estandarte daquele bloco descendo a ladeira centenária.


Chega de falsos machos!
Viva Marilene Felinto!
Viva Djair Rego e Sandra Roque!
Viva! Viva! Viva à memória!


Não me vou embora pra Pasárgada
Pois não quero ser amigo do rei
Nem me deitar com mulher nenhuma
Pois não escolherei.


Vou em busca do sol
Do mar morno
Do corpo magro
Vou voltar pro meu ninho, carinho


Viva, Fernando Pessoa, Witman, Wilde
Viva, Mário de Andrade, Oswald e Pinto Calçudo
Vou sumir no horizonte feito o final de O Guarani
Vou em busca do meu uiraquitã
Que está dentro de mim mesmo.


Adeus, mosteiro trapista!
Chega de disciplina medieval,
Chega de contemplar o umbigo,
Chega de silêncio,
Chega de doar-se,
Chega de calar-se.


Viva! A memória que me trouxe de volta à vida!
Viva Maria Moura, Diadorina e Luzia-Homem!
Viva Bárbara de Alencar!
Viva Exu
(que é abelha e não, demônio)
viva às mulheres-varões!
Viva!


Eh-ah! nego-bom, bolo de rolo e de bacia, mas vou buscar tapioca com peixe frito e cerveja nas manhãs da Redinha!


Adeus, Pernambuco!
Adeus, Recife!
É a saudade que tá me levando pelo braço!

Florêncio Caldas
Madrugada de 3/11/2001.

evocação

a pele negra
de princesa nagô
iorubá Xangô
doce língua cativa

Oxum obá
Iansã, Nanã

a preta-velha canta o canto
lacrimoso no terreiro
batuques e madrugadas
caboclos das matas, Oxossi

Oxum obá
Iansã, Nanã

mãe Albina
dá corpo à menina
belorizonte passarela
e gira e gira e gira

Oxum obá
Iansã, Nanã

São Sebastião
São Jorge São Pedro
Santo Inácio
e São João menino

de olho na menina
mãe Albina mãe Albina

Oxum obá
Iansã, Nanã

em tempos de eu menino
chiclete no poste
quebra-pernas
tô no poço
Cosme e Damião

Oxum obá
Iansã, Nanã



terça-feira, 12 de junho de 2012


a carcaça do verme no vaso

Existem sujeitos por toda parte, entre a luz e a sombra. (Michel Serres)



Acordou cedo e saiu.  Naquela manhã em que tudo parecia comum como sempre foi, tomou uma decisão: tinha de ser poeta.  Fez a barba e saiu.  Mesmo sendo homem, carne sem luz, criatura cega, tinha de ser poeta.  Engoliu um café preto e saiu.  Aquela decisão não o deixou dormir.  Precisava ser poeta.  Depois daquela aula em que leu Baudelaire, analisou um poema de Bilac, ouviu a leitura de Augusto dos Anjos e viu um livro de Hilda Hilst que o professor mostrou na aula.  Lavou-se, pelos e sombras, solidão e desgraça, sovacos, coxas, o escuro buraco, sexo, bolotas.  Ai senhores, ele tinha igual a vós o fétido buraco!  E saiu.  Não tinha mais o que pensar.  Estava decidido: ia ser poeta.  E saiu decidido.  Pensando na menininha que lambia o sorvete de chocolate do amigo do pai no livro que o professor mostrou na aula e fez a patricinha do lado ficar ruborizada.  Pegou um ônibus, transitou na realidade geográfica infeliz e foi pra aula.  Hoje iam estudar Lima Barreto, pro vestibular.  Que merda!!  Porra de vestibular!!  Um cu essas leituras.  Uma leitura mecânica, dirigida.  Não!  Tinha Baudelaire e a carcaça do carneiro na mente e o verso de Augusto dos Anjos.  Depois que leu, convenceu-se de que ele tão jovem e tão adolescente era mesmo um verme e seu corpo se arrastava para a podridão e o Universo calado o renegava.  Tinha de ser poeta.  A cabeça fervilhava mil ideias a mil a toda hora sempre e sempre querendo romper como uma espinha juvenil manchando o rosto ou como porra quente entrededos e certificou-se se sabia ler.  Olhou tudo ao seu redor e procurou uma musa talvez, mas só carros e asfalto e buzinas e popozudas e bombados e óculos escuros e boticários e avon e aquele forró insistente do motorista.  E sua própria boca que o maldizia.  Assim não conseguiria escrever uma métrica sequer.  Se deu conta de que não havia mais o Olimpo nem Afrodite, nem Eros, nem Teseu, nem Andrômeda.  Parou triste.  Mas tinha de ser poeta.  Seguiu.  Na escola estava tudo tão igual: todos com a mesma roupa e lembrou de Mao.  E daquele rock que pedia teacher leave your kids alone.  Não se sentia mais um tijolo no muro.  Fruto injustificável dentre os frutos, montão de estercorária argila preta.  Não.  E não queria isso porque sabia que não era isso.  E isso não levava ninguém a pasárgada?  Encontrou os amigos e disse: Tenho de ser poeta.  Riram e riram e gargalharam e gargalharam e disseram que ia morrer de fome e que ia ficar na margem sem espaço no shopping.  Que seria excrescência de terra singular.  A ideia de ficar fora dos amigos o deixou melancólico.  E pensou em Diadorim e seu amor.  Foi quando tocou o celular e ele acordou e sem saber caiu o véu de Ísis.  Revelou-se a ele o sentido mesmo do verso de Augusto dos Anjos e percebeu de qual carcaça falou Baudelaire e chorou uma lágrima comprida e solitária.  Foi quando olhou em volta e só viu feras e sentiu-se mais convictamente verme.  Nunca estrela se supunha.  Agora se sabia verme e não tinha nenhuma luz para se cegar.  Tinha de ser poeta.  Tinha de revelar ao mundo a certeza de que era dono.  De como percebeu que o universo era como uma pedra de igual valor.  Seu amor a se esparramar na poltrona diante do capítulo de Machado.  Capitu.  O mal absoluto.  Infidelidades egocêntricas.  A dor de ser o que se é e mesmo assim ter de chamar por Mary e não ser ouvido.  Se ao menos lhe fosse dado o direito de olhar na cara dos homens...  Seria possível lembrar do peixe tatuado no ombro daquele amigo!  Mas tinha de continuar com seu intuito: tinha de ser poeta.  Sentou-se só a um canto e olhou todos os outros.  Pensou.  Parou.  Olhou.  Teria ele um só direito: o de chorar?  Levantou-se e saiu.  Tinha de ser poeta.  Mas como seria poeta e escreveria um poema.  Se ele se sentia agora seu próprio verso.  Ou palavra espaçada em branco de papel num jogo de interdito entre o sentido e o verbo.  Era ele mesmo a palavra pronunciada.  Era ele mesmo a palavra escrita, para sempre para sempre presa a um papel.  Sancho Pança de si mesmo.  Pinto Calçudo.  Comeu um hot dog com coca-cola e foi ao seu quarto.  A porta bateu atrás de si.  Foi ouvir sua banda favorita.  Pensou.  Já não havia mais versos pra se escrever?  Olhou em volta e viu o mundo de cima.  E não podia entender essa vida de querer ser o mesmo que outros.  Levantou-se e foi à janela.  E aquela menina em frente à tabacaria que já não existia a comer chocolates com mais metafísica que tudo.  E pensou em Dorinha, meu amor.  E se ele fosse também bastante puro...  mas não o era.  Ninguém era.  Não era mais ele mesmo.  Não seria mais apenas um, tinha um verso, sabia que tinha.  Precisava contribuir com ele.  Pois já sabia da lama que o esperava.  Já sabia que a mão que afaga é a mesma que apedreja e que o beijo é a véspera do escarro.  A carcaça do verme no vaso fez com que percebesse que ele mesmo era o infante e a princesa que dormia.  Retirou a grinalda de hera que lhe cobria o rosto e beijou a si mesmo.  Precisava ser poeta.  Escreveu um hai-kai.  E foi dormir.
Florêncio  Caldas